Da empresa familiar para 2 Micro-SaaS de R$ 130k de MRR
Estudo de caso do Kaue Bueno e seu portfólio
Na edição de hoje, trago o estudo de caso de um membro do Micro-SaaS PRO, Kaue, que saiu de uma grande empresa familiar de SaaS para criar dois Micro-SaaS que somados passam de R$ 1.5M ARR.
Peço desculpas pela ausência semana passada. Tirei uma mini férias :D
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Da empresa familiar para 2 Micro-SaaS de R$ 130k de MRR
A história de Kaue Bueno é inseparável da tecnologia. Crescendo em uma família onde o pai já trabalhava com sistemas "desde muito pequeno", Kaue foi naturalmente absorvido por esse universo.
"Por livre e espontânea pressão", como ele gosta de brincar, começou a trabalhar na empresa familiar aos 13 ou 14 anos - uma software house especializada em sistemas de PDV para o varejo.
Durante esses anos formativos, Kaue viveu a realidade do mercado de software B2B brasileiro. Fez de tudo: foi analista de suporte, implantou sistemas "em tudo que é lugar que você imaginar", conheceu de perto as dores e necessidades do varejo nacional. Essa experiência multifacetada construiu uma base sólida, mas também revelou as vulnerabilidades do modelo de negócio familiar.
A empresa tinha uma característica peculiar e perigosa: uma carteira pequena de clientes, mas com altíssimo volume de unidades. Grandes redes de varejo que, sozinhas, representavam mais de 95% do faturamento total.
"Qualquer rede que eu perdesse dava um impacto muito grande no nosso faturamento, muito grande - Era o ganha-pão da família toda."
Essa fragilidade não era apenas teórica. Ao longo dos anos, a família passou por esse cenário várias vezes - a perda de um grande cliente significava um rombo imenso nas finanças. Era um modelo que havia construído patrimônio familiar, mas que carregava em si a semente de sua própria instabilidade.
Academicamente, Kaue seguiu o caminho natural: formou-se em Engenharia Elétrica com ênfase em Computação pela FEI - uma combinação que, segundo ele, hoje é rara ("ou é engenheiro mesmo ou você já cai mais para a ciência da computação"). Complementou com um MBA em Gestão de Pequenas e Médias Empresas, já vislumbrando horizontes além do código.
Primeiro Micro-SaaS: O Somei
"Trauma leva a ações"
Esse trauma, levou o Kaue à criação do primeiro app. A decisão não foi individual, mas uma demanda conjunta da empresa familiar, cansada de ver o faturamento oscilar drasticamente a cada cliente perdido ou conquistado.
O timing parecia perfeito: o mercado de PDV estava maduro e estabilizado há 5-7 anos. A estratégia era radical mas lógica - se o problema era depender de poucos clientes grandes, por que não ir para o extremo oposto?
Miraram nos pequenos, muito pequenos: MEIs, autônomos, microempresas. "Se a gente atendia clientes muito grandes, a gente foi na outra via", explica Kaue.
O Somei foi concebido como um PDV móvel com sistema de gestão completo, traduzindo décadas de expertise em sistemas complexos para grandes franquias em algo simples e acessível. A data de lançamento estava marcada: 20 de abril de 2020. A pandemia havia sido decretada em março. "A gente estava prestes a lançar, chegou a pandemia", relembra Kaue. Mas seguiram em frente.
O que se seguiu foram quatro dos seis anos totais de operação dedicados a uma transformação que Kaue descreve repetidamente como "muito cara". "
Foi tudo diferente", enfatiza. O perfil de cliente, a persona, o ICP, a metodologia, os processos de marketing e vendas, até a tecnologia - tudo precisou ser reinventado.
"Quando você começa, não começa já sabendo que é diferente. Começa fazendo igual e errando.”
A busca pelo modelo de negócio certo virou uma verdadeira odisseia. Primeiro tentaram o SaaS tradicional - "não foi suficiente para os MEIs". Depois, transformaram o Somei numa microfintech, oferecendo software gratuito e monetizando por transação.
Os problemas foram múltiplos: necessidade de muito capital de giro, alta taxa de fraude no público, guerra brutal por taxas com "competidores terríveis, os maiores do mercado". Não funcionou.
A terceira tentativa foi criar um mini marketplace B2B, conectando fornecedores aos comerciantes. "Testamos, não rodou."
"Eu já estava tipo lacerado, por dentro, por fora. Já tinha gastado muito, muito dinheiro, durante muito tempo, muita expectativa, muita energia."
A empresa havia chegado a 15 funcionários, construído uma base enorme de usuários gratuitos, mas poucos pagantes. O faturamento era "um conjunto de colcha de retalhos", reflexo dos múltiplos modelos testados.
Segundo Micro-SaaS: Profissa Digital
Ainda lutando com o Somei, Kaue começou a observar oportunidades adjacentes. O varejo era um "oceano vermelho" - saturado de soluções há décadas. O setor de serviços, por outro lado, apresentava lacunas interessantes, especialmente para prestadores autônomos e MEIs.
A sacada definitiva veio de uma pesquisa massiva: 500 mil orçamentos analisados. As descobertas foram reveladoras. "Das duas uma: ou as pessoas mandavam orçamentos horrorosos assim, que dá até preguiça de ler", ou "o cara às vezes mandava um orçamento legal, mas ele levava muito tempo para fazer". Uma ou duas semanas para enviar um orçamento significava perder o cliente para a concorrência.
O Profissa Digital nasceu com uma proposta cirúrgica: criar orçamentos profissionais em minutos na primeira vez, segundos nas próximas. O sistema automatiza todo o acompanhamento - notifica quando o cliente aprova, transforma orçamento em projeto, organiza a carteira de clientes. "É bem pouquinho", admite Kaue, "porque é só isso que a gente faz mesmo".
O público-alvo foi definido com precisão: "Pensa o pedreirão e replica ele em várias camadas diferentes". Pedreiros, pintores, gesseiros, instaladores, vidraceiros - profissionais de serviços manuais de obra e manutenção residencial. Kaue até menciona que existe validação internacional: "Tem uma tese similar nos Estados Unidos, no Canadá, chama Jobber".
Um desafio técnico importante surgiu: a arquitetura da primeira versão era "tenebrosa", com "custo muito alto para construir funcionalidades simples". A solução foi manter duas versões rodando simultaneamente - o "Orçamento Pro" (versão antiga) e o "Profissa Digital" (versão nova), fazendo aquisição apenas para a nova.
O papel da Comunidade Micro-SaaS
Foi no momento mais difícil que Kaue tomou uma decisão crucial: "comecei a sair um pouco do casulo". Começou a procurar referências no mercado brasileiro de SaaS, pessoas que falassem "com mais propriedade e de maneira acessível".
Assim encontrou Bruno Okamoto :) há cerca de 2-3 anos.
"Achei um artigo, gostei, falei 'pô, isso aqui tá falando minha língua'". O consumo foi gradual - newsletter esporádica no início, depois vídeos no YouTube, compra do livro, comunidade gratuita, até finalmente entrar no Pro.
"Quem procura dinheiro leva mentoria, quem procura mentoria leva dinheiro", filosofa Kaue sobre esse período. Ele procurou dinheiro e levou anos de mentoria cara e dolorosa. "Ganhei muito a mentoria", reconhece.
O impacto foi profundo, especialmente na compreensão do ICP. "Varri todos os vídeos que tinha de ICP", conta. "Cada vez que eu lapidava um pouco mais meu ICP, eu tinha um resultado sempre muito claro: meu custo por lead sobe e meu CAC cai". Menos volume, mais qualidade - contraintuitivo mas poderoso.
Durante esse período, Kaue também navegou entre diferentes "bolhas". Saiu do mundo do software house tradicional de bairro, passou pelo universo das startups (fez 25-30 reuniões com VCs), até encontrar seu lugar no mundo do SaaS bootstrapped.
Fotografia dos negócios
O momento decisivo veio em meados de 2024. Faturando apenas R$ 5 mil mensais, Kaue decidiu definitivamente "pôr o pé no chão". Em menos de dois anos, o crescimento foi de 25x, alcançando R$ 125-130 mil mensais.
Hoje, os dois produtos somados faturam pouco mais de R$ 130 mil mensais. O Somei, apesar de todas as dificuldades, ainda representa cerca de 40% - reflexo dos anos de aquisição e da base que conseguiu converter para pagante. O Profissa Digital cresce consistentemente com um modelo mais claro desde o início.
A transformação mais impressionante está no churn. De absurdos 36% mensais, caiu gradualmente para 18%, chegando a 14% no último mês.
A operação é enxuta por design. De 15 pessoas no auge, hoje são 5 - "poucas e boas".
Entre eles, um "braço direito" especialista sênior em tráfego pago, responsável pelas campanhas de Google e Meta Ads, com o Google apresentando melhor performance. A aquisição é 100% via tráfego pago, o que traz volatilidade mas é gerenciável com a estrutura atual.
Um insight fascinante é a diferença demográfica entre os produtos. O Somei tem 65% de usuárias mulheres, "gente mais estabilizada". O Profissa atende majoritariamente homens - "pensa o perfil do pedreiro", com toda a volatilidade que isso implica.
Os desafios do modelo de negócio
Kaue faz uma distinção crucial sobre seu posicionamento. "Eu brinco que tem um mercado único no Brasil, que é o MPE - micro e pequeno, no máximo". Diferente de ferramentas como ContaAzul que miram pequenas e médias empresas de verdade, ele trabalha com um público de "altíssimo volume de CNPJs ou CPFs empresas", mas com qualidade desafiadora. "Nem chego na média", enfatiza.
Esse público apresenta desafios únicos. As taxas de churn no primeiro mês com aquisição paga podem "bater 40%, é um negócio violento". A exigência de cartão de crédito no cadastro é uma barreira significativa - "LTV baixo, barreira de entrada muito alta".
A transição do gratuito para pago no Somei foi um processo meticuloso. Sabendo que enfrentaria resistência ("algum rage do pessoal"), Kaue implementou uma estratégia gradual: primeiro reduziu benefícios do plano gratuito, depois limitou mais, até finalmente remover completamente, mantendo 30 dias de trial - "muito ainda", mas necessário com a equipe enxuta.
Curiosamente, tentativas de marketing de conteúdo tiveram resultados mistos. Para o Somei "não deu certo" - muito trabalhoso e difícil de gerenciar com agência. Para o Profissa, o blog "deu certo", mostrando como públicos diferentes respondem diferentemente.
Lições aprendidas
Para quem está começando do zero, Kaue é direto: "Valida a ideia em primeiro lugar. Fake door para tudo." Construa apenas com tese validada, mantenha tudo enxuto, use automações antes de contratar. E quando contratar, "só sênior no começo - júnior vira mais uma boca para alimentar, uma fralda para trocar".
Para quem vem do mercado corporativo, o conselho é ainda mais enfático: "Lavagem cerebral. Limpa tudo que você carrega do mercado antigo." Não importa se você foi "o master blaster PM do Nubank" - construir o próprio negócio é completamente diferente. Cuidado especial com over-engineering e decisões técnicas que podem "matar teu caixa antes de validar o negócio".
Mas a grande lição, o trauma transformador que Kaue carrega, é simples e poderosa: "Minha frustração foi ter gastado muito dinheiro, muito tempo e muita expectativa."
Moral da história
A jornada de Kaue Bueno é um testemunho raro e honesto sobre o que realmente significa construir um SaaS no Brasil. Não é uma história de crescimento meteórico ou exits milionários. É sobre pivotadas dolorosas, aprendizados caros, momentos de quase desistência, mas também sobre encontrar o próprio caminho.
É sobre sair da dependência de grandes clientes e aprender a servir os muito pequenos. Sobre testar todos os modelos possíveis até encontrar um que funcione. Sobre reduzir uma equipe de 15 para 5 pessoas e descobrir que menos pode ser mais. Sobre transformar um churn de 36% em 14% através de foco obsessivo no cliente certo.
Mais importante, é sobre a coragem de "pôr o pé no chão" quando necessário. De abandonar fantasias de unicórnio e construir algo real, sustentável, que resolve problemas verdadeiros para pessoas verdadeiras.
Com dois produtos faturando mais de R$ 120 mil mensais, Kaue prova que sucesso no SaaS brasileiro não precisa seguir o playbook do Vale do Silício. Às vezes, basta um orçamento profissional enviado em segundos para um pedreiro que precisa fechar mais negócios. É pouco? "É bem pouquinho", concordaria Kaue. Mas é real, é sustentável, e está mudando vidas - inclusive a dele.
"Mudou a nossa trajetória", resume. E continua mudando, um cliente de cada vez, um orçamento de cada vez, um aprendizado de cada vez.
Obrigado por ler até aqui :)







